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  • Terapia Sexual: Para Que Serve e Quando Procurar

    Terapia Sexual: Para Que Serve e Quando Procurar

    Poucos temas carregam tanto silêncio quanto a vida sexual. É comum alguém viver anos com uma queixa — falta de desejo, dor, dificuldade para atingir o orgasmo, distância física de um(a) parceiro(a) — sem nunca dizer isso em voz alta para um profissional. Não porque o problema seja pequeno, mas porque nomeá-lo parece maior do que ele é. A vergonha, nesse caso, costuma pesar mais do que a própria dificuldade. Na terapia sexual, isso é conversado sem julgamentos.

    Se você já pensou “será que isso é coisa pra terapia?” e desistiu da pergunta antes de chegar à resposta, este texto é para você.

    O que é terapia sexual, na prática

    Terapia sexual é um espaço para tratar dificuldades relacionadas ao desejo, à excitação, ao prazer ou à dor durante a vida sexual — individualmente ou em casal. Ela se diferencia da terapia de casal porque o foco entra especificamente na dimensão sexual, ainda que, na prática clínica, seja comum que as duas se entrelacem: dificuldades sexuais afetam a relação, e dificuldades na relação afetam a vida sexual.

    Um ponto importante, e pouco falado: sexualidade não é um compartimento isolado da saúde mental. Um estudo brasileiro conduzido no Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria da USP, com homens em busca de tratamento para questões sexuais em São Paulo, encontrou associação consistente entre sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades sexuais (Scanavino et al., 2018). Ou seja: em muitos casos, a queixa sexual é também um sintoma de algo mais amplo — e tratá-la isoladamente, sem olhar para esse contexto emocional, tende a não resolver a raiz do problema.

    Por que “desejo” não é tão simples quanto parece

    Por muito tempo, a sexualidade foi descrita através de um modelo linear: desejo leva à excitação, que leva ao orgasmo, que leva à resolução — uma sequência única, igual para todo mundo. Só que a prática clínica (e a pesquisa) mostram que essa não é bem a experiência da maioria das pessoas, especialmente mulheres.

    A psiquiatra Carmita Helena Najjar Abdo, também do ProSex/USP, discute em seu trabalho um modelo alternativo — desenvolvido pela pesquisadora canadense Rosemary Basson — no qual o desejo nem sempre vem primeiro. Muitas vezes ele surge depois que a intimidade já começou, motivado por proximidade emocional, contexto e resposta do corpo, não como um “gatilho inicial” espontâneo (Abdo, 2010). Entender isso muda completamente a forma como se avalia uma queixa de “falta de desejo”: às vezes o problema não é ausência de desejo, é a expectativa de que ele deveria aparecer de um jeito que, para aquela pessoa, nunca funcionou assim.

    Quer entender esse modelo em profundidade? Escrevi um artigo dedicado só a ele — veja “Leia também” no fim desta página.

    Como eu trabalho

    Na minha prática, meu trabalho é orientado pela Terapia Cognitivo-Comportamental e pelos recursos das terapias contextuais de terceira geração, que ampliam o olhar sobre como pensamentos, emoções e comportamento se conectam também no campo da sexualidade.

    Cheguei até esse campo de um jeito que talvez seja parecido com o de muitos colegas: aos poucos, fui percebendo o quanto a sexualidade aparecia — muitas vezes de forma indireta — nas questões que as pessoas traziam. Essa percepção foi virando curiosidade, e a curiosidade foi virando estudo: especializações, formações, congressos, leitura constante. Sigo nesse movimento até hoje, porque a sexualidade é um campo vivo, e as demandas que chegam ao consultório mudam o tempo todo, entrelaçadas com outras faces da vida — a relação, o corpo, a história pessoal, a saúde emocional.

    No consultório, meu compromisso é com uma escuta acolhedora e sem julgamento, que trata cada queixa — por menor que pareça — como legítima, e que busca entender a pessoa (ou o casal) na complexidade real da vida, não só no sintoma que trouxe até aqui.

    Leia também: Por que você não consegue parar? A ciência por trás do vício em dopamina

    Você não precisa de uma “disfunção grave” para procurar ajuda

    Um mal-entendido comum é achar que terapia sexual é só para quem tem um diagnóstico formal de disfunção sexual. Na prática, boa parte de quem procura esse tipo de acompanhamento está lidando com algo mais sutil: uma vida sexual que “funciona” mas não satisfaz, uma dificuldade de comunicar o que gosta ou não gosta, um desconforto que nunca foi nomeado, ou simplesmente curiosidade sobre a própria sexualidade.

    Não existe queixa pequena demais para merecer espaço de conversa. Se algo na sua vida sexual te incomoda — ou te faz curiosidade — isso já é motivo suficiente para procurar ajuda.


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    Perguntas frequentes

    Terapia sexual é só para quem tem uma disfunção sexual diagnosticada?

    Não. Boa parte de quem procura esse tipo de acompanhamento está lidando com algo mais sutil: uma vida sexual que funciona mas não satisfaz, dificuldade de comunicar o que gosta ou não gosta, um desconforto nunca nomeado, ou simplesmente curiosidade sobre a própria sexualidade. Não existe queixa pequena demais para merecer espaço de conversa.

    Terapia sexual substitui a terapia de casal?

    Não exatamente — são focos diferentes, ainda que costumem se entrelaçar na prática. A terapia sexual entra especificamente na dimensão do desejo, da excitação, do prazer ou da dor durante a vida sexual, enquanto a terapia de casal trata da relação de forma mais ampla. Dificuldades sexuais afetam a relação, e dificuldades na relação afetam a vida sexual — por isso os dois processos frequentemente caminham juntos.

    Falta de desejo sexual sempre é um problema a ser tratado?

    Nem sempre é ausência real de desejo — muitas vezes é a expectativa de que o desejo deveria surgir espontaneamente antes da intimidade, quando na prática ele costuma aparecer depois que a proximidade emocional e o contexto já começaram. Entender essa diferença muda completamente como uma queixa de “falta de desejo” deve ser avaliada.

    Queixas sexuais podem estar ligadas a ansiedade ou depressão?

    Sim. Pesquisa brasileira encontrou associação consistente entre sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades sexuais em pessoas em busca de tratamento. Isso significa que, em muitos casos, tratar a queixa sexual isoladamente, sem olhar para esse contexto emocional mais amplo, tende a não resolver a raiz do problema.


    Referências

    ABDO, Carmita Helena Najjar. Considerações a respeito do ciclo de resposta sexual da mulher. Diagnóstico & Tratamento, São Paulo, v. 15, n. 2, p. 88-90, 2010.

    SCANAVINO, Marco de Tubino et al. Sexual compulsivity, anxiety, depression, and sexual risk behavior among treatment-seeking men in São Paulo, Brazil. Brazilian Journal of Psychiatry, [s. l.], v. 40, n. 4, p. 424-431, 2018. DOI: 10.1590/1516-4446-2017-2476. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1516-4446-2017-2476. Acesso em: 26 ago. 2026.

  • Ansiedade, Depressão e Vida Sexual: Existe Conexão?

    Ansiedade, Depressão e Vida Sexual: Existe Conexão?

    Quando o assunto é ansiedade, depressão e vida sexual, é comum a pessoa chegar à terapia falando só da queixa sexual — “não sinto mais desejo”, “não consigo relaxar durante o sexo”, “perdi o interesse” — sem mencionar que, no mesmo período, o sono piorou, a cabeça não desliga à noite, ou uma tristeza persistente se instalou sem motivo aparente. Não é falta de atenção: é que, culturalmente, aprendemos a tratar o sexual e o emocional como gavetas separadas. A pesquisa mostra que elas não são.

    A relação entre ansiedade, depressão e vida sexual: a ponta do iceberg

    Ansiedade e depressão afetam o corpo inteiro — o sono, o apetite, a energia, a concentração — e a sexualidade não fica de fora dessa equação. Isso acontece por caminhos diferentes: a ansiedade pode gerar hipervigilância e dificuldade de relaxar durante a intimidade; a depressão costuma reduzir o interesse e a energia disponível para praticamente tudo, incluindo o sexo; e ambas podem alimentar uma autocrítica que torna a experiência sexual mais um lugar de julgamento do que de prazer.

    O que mostram as pesquisas brasileiras

    Um estudo conduzido no Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria da USP, com homens em busca de tratamento para questões sexuais em São Paulo, encontrou associação consistente entre sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades sexuais nessa população (Scanavino et al., 2018).

    Entre mulheres, uma pesquisa realizada com jovens de 20 a 29 anos pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ encontrou um padrão parecido: mulheres solteiras apresentaram maior prevalência de dificuldades em domínios como lubrificação, orgasmo e satisfação sexual, além de escores mais altos de sintomas depressivos, quando comparadas a mulheres em relacionamentos estáveis (Pereira; Nardi; Silva, 2013). Os achados reforçam que o contexto emocional e relacional não é um detalhe periférico da queixa sexual — é parte dela.

    Por que isso muda o tratamento

    Quando uma queixa sexual é tratada isoladamente, sem olhar para esse pano de fundo emocional, o alívio tende a ser parcial ou temporário. Por outro lado, tratar apenas a ansiedade ou a depressão, e assumir que a vida sexual vai se resolver sozinha depois, também nem sempre funciona — em alguns casos, a dificuldade sexual ganha vida própria mesmo depois que o quadro emocional melhora, especialmente quando já se formaram crenças de medo ou de fracasso em torno do sexo.

    Por isso, uma avaliação que considere as duas dimensões juntas — emocional e sexual — costuma trazer resultados mais completos do que tratar cada uma separadamente, em processos que não conversam entre si.


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    Perguntas frequentes

    Ansiedade e depressão podem causar dificuldades sexuais?

    Pesquisas brasileiras encontraram associação consistente entre sintomas de ansiedade, depressão e dificuldades sexuais, tanto em homens quanto em mulheres em busca de tratamento. Isso não significa que toda queixa sexual tenha origem emocional, mas indica que esse contexto precisa ser avaliado junto com a queixa.

    Tratar só a ansiedade ou a depressão resolve a queixa sexual sozinho?

    Nem sempre. Em muitos casos sim, a melhora do quadro emocional já traz alívio para a vida sexual. Mas em outros, a dificuldade sexual ganhou vida própria — por exemplo, através de ansiedade de desempenho ou de crenças que se formaram durante o período mais difícil — e precisa ser trabalhada especificamente, mesmo depois que o quadro emocional já melhorou.

    Medicação para ansiedade ou depressão pode afetar a vida sexual?

    Sim, alguns medicamentos usados no tratamento de ansiedade e depressão podem impactar desejo, excitação ou orgasmo. Essa é uma conversa importante para ter com o médico responsável pela prescrição — e algo que também pode ser abordado em terapia sexual, já que muitas vezes existem estratégias para lidar com esse efeito sem abrir mão do tratamento necessário.

    Como saber se minha queixa sexual está ligada à ansiedade ou à depressão?

    Vale observar se a dificuldade sexual apareceu junto com outros sinais — mudanças no sono, no apetite, na energia, no humor, ou uma preocupação excessiva que não sai da cabeça. Quando esses sinais caminham juntos, uma avaliação que olhe para os dois lados ao mesmo tempo tende a ser mais eficaz do que tratar a queixa sexual isoladamente.


    Referências

    PEREIRA, Valeska Martinho; NARDI, Antonio Egidio; SILVA, Adriana Cardoso. Sexual dysfunction, depression, and anxiety in young women according to relationship status: an online survey. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, v. 35, n. 1, p. 55-61, 2013. DOI: 10.1590/S2237-60892013000100007.

    SCANAVINO, Marco de Tubino et al. Sexual compulsivity, anxiety, depression, and sexual risk behavior among treatment-seeking men in São Paulo, Brazil. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 40, n. 4, p. 424-431, 2018. DOI: 10.1590/1516-4446-2017-2476.